Fabricio Bloisi

Um unicórnio nascido no Brasil: que tal deixar de sonhar e transformar isso em realidade?

Postado em 12 de April de 2016

O Vale do Silício, região da Califórnia que concentra as principais empresas de tecnologia do planeta, é considerado a capital mundial da inovação. Como um ímã, atrai empreendedores de vários países em busca de um sonho: o de transformar sua startup recém-criada num unicórnio, como são chamadas as raríssimas empresas bem-sucedidas da região avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Basta lembrar que apenas três das startups surgidas ali dessa maneira, Apple, Facebook e Google, hoje valem, juntas, cerca de US$ 1,4 trilhão – praticamente o mesmo valor do PIB brasileiro.

É fato que o ecossistema que moldou o Vale do Silício – investimento em pesquisa com apoio do governo e de instituições de ensino, coragem de investidores privados, além do talento visionário de empreendedores – facilita a multiplicação de histórias de sucesso como as de Steve Jobs, Mark Zuckerberg e Larry Page. Mas vale aqui nos questionarmos: se a era digital derrubou barreiras geográficas e unificou a linguagem da inovação, é possível vislumbrar a versão tropical de um unicórnio, uma empresa global de internet criada no Brasil em condições de brigar com as gigantes do setor?

Você pode se surpreender, mas a resposta é sim – e isto não está tão longe quanto parece.

A rigor, a receita de sucesso dos unicórnios do Vale do Silício pode ser replicada em qualquer lugar do planeta: boas ideias que geram um produto ou serviço disruptivo, um modelo de negócio sólido e, principalmente, um time formado por pessoas muito talentosas e persistentes.

É evidente que, para se tornar um líder mundial, o caminho percorrido por uma startup brasileira com as características acima é muito mais árduo do que as similares da Califórnia. A começar pelas dificuldades que estamos acostumados a enfrentar por aqui para tocar um negócio digital. Os impostos e o custo de capital são elevados, falta capital disposto a assumir altos riscos, falta mão de obra especializada em escala, há muita burocracia e temos uma legislação trabalhista restritiva.

É claro que tudo isso atrapalha, e muito, mas acredito que passamos tempo demais reclamando do ambiente e tempo de menos focando nos problemas que nós mesmos – empreendedores brasileiros – também possuímos. Precisamos parar de atribuir nossos resultados ruins apenas às falhas conjunturais do País e focar nossas energias nos problemas que dependem de cada um de nós – são estes que podemos solucionar já e que têm enorme impacto no nosso caminho para criar casos de grande sucesso no Brasil.

Sonhar grande e pensar global

O maior deles talvez seja nossa dificuldade de sonhar grande. Em vez de nos inspirar no gigantismo do país para alçar voos altos no mercado externo, muitas de nossas pontocom se contentam em brigar pelo mercado interno.

O problema é que essa estratégia já não faz mais sentido no atual ambiente de negócios digitais, marcado por investimentos em produtos de escala global, cujo acesso foi facilitado em qualquer lugar do planeta com a popularização da Internet e das lojas de aplicativos. O app criado aqui pode ser baixado e consumido simultaneamente do outro lado do mundo. Como ignorar isso?

Tornar-se global deixou de ser opção para virar uma necessidade.Portanto, ao mirar apenas o mercado nacional, as empresas brasileiras ficaram reféns de suas próprias limitações – não atraem investidores externos e correm o risco de serem engolidas a qualquer momento por um unicórnio vindo de fora.

Inovar mais. Arriscar mais. Aprender Rápido

Precisamos de empresas não apenas com a mesma mentalidade global que impulsiona o Vale do Silício, mas também que apostem no maior ativo da era digital: a inovação. É preciso inovar na forma de criar um produto, na busca pelos melhores profissionais para desenvolvê-lo, no modelo de negócio, na tecnologia que o tornará diferenciado, na estratégia adotada para atrair investidores, entre outros pontos.

O site Mercado Livre é nosso melhor exemplo de startup que trilhou um crescimento sustentável no mercado latino-americano. Depois de se estabelecer como um site de compra e venda de produtos, investe em novas áreas, como pagamentos, transporte e gestão dos pequenos negócios. Hoje é uma empresa pública na bolsa de valores Nasdaq, avaliada em mais de US$ 5 bilhões. Muitas outras podem seguir este caminho.

Sair da zona de conforto e lutar pela liderança no seu nicho de mercado é condição básica para sobreviver no mercado digital.  Não há fórmula pronta, é preciso usar e abusar da estratégia de tentativa e erro até emplacar o produto certo. Acredito que o mais importante não é acertar, e sim errar rápido — e aprender e melhorar a cada passo.

Na Movile, sempre acreditamos que seria possível criar um líder global a partir do Brasil. Nosso sonho grande é tornar a vida melhor para 1 bilhão de pessoas através de nossos apps, até 2020. Desde o início traçamos uma estratégia visando esse objetivo e cada vez mais acreditamos que isto é possível. Hoje, mais de 70 milhões de pessoas pelo mundo usam nossos serviços.

O aplicativo Playkids, lançado em 2013, já é utilizado em mais de cem países – em 30 deles é o app infantil mais rentável do mercado. O app iFood, serviço de entrega de comida via celular, é outro exemplo de como sonhando grande podemos criar um case de sucesso global: em apenas dois anos, o iFood incorporou dez outras startups de delivery e ao longo desse processo viu seu número de pedidos crescer 40 vezes – e agora esta expandindo globalmente.

Temos certeza que o PlayKids e o iFood estão entre os melhores do mundo em suas respectivas categorias. E estamos confiantes que as oportunidades à frente são maiores do que as que ficaram para trás. Serão trilhões de dólares de oportunidades a conquistar no mercado de tecnologia global nos próximos anos.

Vamos parar de pensar pequeno e conquistar nossa parte nesse valor– agora é nossa hora.

Originalmente publicado em: LinkedIn