Eduardo Henrique

Postado em 13 de December de 2016

As crianças da Geração Alpha, nascidas após 2010, são nativas digitais e aprendem a ligar o tablet e o celular muito antes de escreverem o próprio nome. Desde muito cedo, têm acesso a uma infinidade de informações, assim como recursos que permitem que se desenvolvam de forma autônoma, participativa e, principalmente, interessante, divertida e lúdica. Nosso maior desafio é entender melhor essa mudança e saber como podemos usá-la a favor da educação dos pequenos. E a tecnologia talvez seja uma das mais importantes ferramentas para fazer a revolução e a democratização tão necessárias na Educação.

As crianças de hoje entrarão no mercado de trabalho aproximadamente em 2030, quando o mundo será bem diferente do que é hoje, altamente influenciado pela tecnologia. Goste você ou não.

Falando em futuro, este artigo mostra que as autoridades de alguns estados americanos estão planejando o número de prisões para daqui a 15 anos com base nas estatísticas atuais de quão preparadas as crianças chegam na 3a série, mas especialistas dizem que o impacto vem antes do jardim da infância. Teorias apontam que se os pais conseguirem estimular corretamente as crianças para encontrarem prazer na leitura e outras atividades interativas , desenvolvendo a capacidade de convívio social até os 5 anos, as chances de terem uma vida promissora aumentam consideravelmente, diminuindo os índices de criminalidade.

Considerando este cenário, fica fácil imaginar o tamanho do desafio que as escolas e os pais têm para conseguir atrair o interesse da criança ao aprendizado. A missão fica ainda mais complexa se pensarmos que, de maneira geral, as instituições de ensino ainda seguem um modelo tradicional com um professor expondo conceitos na frente de uma sala, provavelmente repleta de crianças e jovens entediados, bocejantes e dispersos, repetindo um mesmo modelo praticado há séculos. Esse problema não condiz com a situação atual de acesso a conhecimento e informação. Até o ano 1900, o conhecimento e informação acessível pela humanidade dobrava a cada século. Isso está crescendo exponencialmente e espera-se que em breve toda essa quantidade de conhecimento dobre a cada 12 horas!

O pior dessa história é que pais e professores estão abandonados em relação à capacitação digital, sem referências ou guias de como utilizar positivamente a tecnologia para a formação das suas crianças. Uma consequência óbvia desse abandono é o medo de que eles não estejam fazendo o melhor trabalho junto aos pequenos. E o resultado disso é demonizar a tecnologia e voltar para a zona de conforto onde fomos criados – sem tecnologia,  tablets e ou smartphones.

Antes de continuar, é bom lembrar que não considero saudável o uso excessivo de tecnologia. Se considerarmos um adulto que jogue poker online por 10 horas, um  jovem que fique focado em seu video-game por longos períodos ou uma criança exposta passivamente a vídeos, eles certamente terão problemas semelhantes, como dificuldade de socialização, sedentarismo etc.

Qual a solução para esse dilema?

Estive recentemente em Los Angeles participando da Conferência Anual da NAEYC, maior feira dos EUA para professores de crianças abaixo de 8 anos. Muitas das sessões abordaram o impacto da tecnologia na educação e alguns pontos me chamaram atenção:

  • Trabalho com tecnologia para crianças há 4 anos e foi a primeira vez que vi cientistas de primeira linha afirmarem que a tecnologia, se usada corretamente com o suporte e participação de pais e professores, é benéfica para as crianças;
  • Professores e pais precisam de ajuda para enfrentar o desafio. Eles estão atrasados no conhecimento de como aplicar a tecnologia na educação infantil. É preciso investir em treinamentos, vídeos explicativos, guias para orientá-los;
  • Estamos mais avançados do que pensamos. Já existem muitos aplicativos, sites, vídeos disponíveis (muitos são gratuitos com atividades saudáveis para a família), porém o medo ainda afasta pais e professores das experiências;
  • O problema não está na tecnologia: cientistas afirmam que para todos os conceitos  funcionarem é fundamental a participação dos pais e professores brincando, dançando, desenhando, estudando matemática e se divertindo com a molecada;
  • O uso da música aliada à tecnologia tem um potencial colossal, principalmente com as crianças mais novas. Confiram o trabalho do professor e escritor Eric Litwin, que faz um trabalho fantástico unindo livros, histórias e música com um jeito diferente de estimular e ensinar a leitura;

A burocracia atrapalha a adoção disso tudo nas escolas. Para poder homologar um app numa escola, por exemplo, é preciso passar por uma tonelada de certificações e autorizações. Por conta do medo e conservadorismo, esse processo é inviável do ponto de vista de negócios;

As respostas também estão na internet. A relação com o conhecimento, depois da globalização e informatização, adquiriu outra dimensão e a Educação, infelizmente, não tem acompanhado seus passos largos. O papel da tecnologia é fundamental neste processo, pois é ali que está a chave para atender as expectativas dessas crianças. A onda é grande demais para ser bloqueada, e pais e professores vão usar a internet para encontrarem os caminhos para aprenderem a lidar com a tecnologia, e aí, sim, farão pressão para as grandes instituições adotarem massivamente essas práticas.

É dessa forma que construiremos o conhecimento de forma autônoma e colaborativa, na qual o aluno passa a ser um sujeito atuante e não apenas um expectador. Afinal, como nativos digitais, as crianças e os jovens têm habilidades suficientes para relacionarem-se com as novas mídias. E, em muitos casos, até ensinar a nós, que não somos da mesma geração.

Desenvolvedores de serviços e produtos com foco em crianças precisamos investir, cada vez mais, em experiências mais integradas com os pais. O app pode conectar a família em atividades offline que aumentam o aprendizado e promovem a convivência entre os pais e filhos. O mesmo se aplica na escola. Um exemplo legal que já oferecemos no app é a brincadeira de aprender a desenhar. Orientamos pais e filhos a pegarem uma folha de papel real, e ensina passo a passo como desenhar mais de 20 figuras. Outro exemplo são as atividades propostas pela série chamada SuperHands, que convida a família a construir brinquedos com objetos da casa, como prendedor de roupa, rolo de papel higiênico, fita adesiva, barbante e outros. Esses são apenas alguns exemplos de ações que acreditamos estar claramente adequadas ao tipo de atividade criativa que os cientistas recomendam entre pais e filhos.

Por fim, tenho muito medo da influência negativa de poderosas marcas que estão atuando no nosso mercado. Claramente vê-se que ferramentas online de renome oferecem uma experiência passiva, sedentária e nada interativa às crianças, sem contar com o sistema de publicidade usado entre os episódios. Isso joga contra toda a teoria que está sendo construída e colabora com a demonização do uso da tecnologia para ajudar no desenvolvimento das crianças.

Minha análise final é extremamente positiva, estamos no começo de uma revolução e muitas das batalhas estão em nossas mãos. Podemos construir juntos um futuro melhor e mais conectado para nossos filhos, basta perdermos o medo e mergulharmos de cabeça no desafio.

Originalmente publicado em: LinkedIn Pulse